sexta-feira, 23 de outubro de 2015

As tradições...


Ai as tradições!...

Recentemente, em Paris, em França, a tourada deixou de ser património cultural, uma decisão que julgo deveria ser estendida a outros países.

Em Portugal, a tauromaquia é considerada, em vários municípios, como Património Cultural e Imaterial de Interesse Municipal, e embora respeite a opinião dos outros sobre esta matéria, esta prática é condenável e discutível.

A discussão ética em torno das touradas é sempre polémica entre apoiantes e opositores. Há quem defenda que é uma tradição cultural e como tal faz parte da memória coletiva de um povo. Contudo, ao longo da história da humanidade foram abolidas muitas tradições por serem inadequadas, atendendo a novos conhecimentos.

No tempo dos romanos, os cristãos eram colocados numa arena com leões para deleite dos seus espetadores. Era uma prática na altura. Hoje seria impensável. Em determinados países é tradição a mutilação genital. O facto de ser uma tradição não nos dispensa de questionar a sua aplicabilidade e legitimidade. As sociedades evoluem e há tradições que devem ser apenas memórias.

A tortura ou os maus-tratos devem, independentemente da forma como são infligidos, ser atos condenáveis. As touradas deveriam ser abolidas.

Entendo e respeito que quem cresça num ambiente em que teve contato com a tauromaquia encare esta prática de outra forma, no entanto estamos a falar de direitos dos animais e do seu bem-estar. Nada justifica a tortura que é infligida ao touro durante o espetáculo, que tem unicamente por finalidade o divertimento e entretenimento dos toureiros e dos seus espectadores.

Há quem defenda que o touro na arena não sofre e que o mesmo é muito bem tratado. Não duvido que seja bem tratado, mas a finalidade é cuidar para posteriormente infligir dor e violência. Não consigo aceitar este argumento. A crueldade praticada na arena é de uma enorme violência e creio que ninguém fica indiferente ao sofrimento do animal. Recordo-me de um episódio que aconteceu este ano, em Espanha, quando uma assistente veterinária entrou numa arena para abraçar um touro que estava caído e em agonia.

A tauromaquia é uma prática que não deveria ter lugar numa sociedade que se quer evoluída e que se preocupa com o bem- estar animal e com os direitos dos animais. Não aceito a ideia de infligir dor ou sofrimento a um animal.

Finalizo com uma “tradição” em Portugal, aquando das festas de São João no concelho de Vila Flor, em que se queima um gato vivo para deleite dos espetadores. É só mais um exemplo em que, creio, as tradições colidem com o patamar cívico que pretendemos alcançar. Por isso, questiono: Nestes casos, devemos respeitar a tradição ou devemos aboli-la?

Silvina Silva.

Fonte: Correio dos Açores, 23 de Outubro de 2015.



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